Essa Tal de Poesia

22/11/08
Vamos falar de poesia.
Mas, sobre qual delas?
Sobre a poesia diária, na qual se esbarra quando abrem se portas, olhos e ouvidos?
Aquela que vive nas cores, nos sabores e odores e que nos chega pelos sentidos físicos?
Ou, sobre aquela poesia que se cria, que se pensa?
Aquela que se concebe no ruidoso silêncio
, no digerir interno dos tais poetas?
Pouco importa qual seja, tanto faz a natureza, falemos dela.
Vamos discursar.
Nos valer da inspiração que enche de sentido e significado o cotidiano, as banalidades e barbaridades da essência humana.
Vamos abusar das tonalidades e pintar de tons berrantes o que se faz pálido.
Vamos moldar o que é volátil e etéreo.
Vamos dar forma ao que é sensação nos valendo das palavras.
Mas talvez elas não bastem, não sejam suficientes.
Por que esses seres... os tais poetas
Esses que buscam na expressão
a tradução do impalpável
Costumam ser insaciáveis.
Para esses loucos e insensatos...
Para essas almas delirantes...
Tudo se faz motivo e forma.
Tudo se faz razão e meio.
Tudo se faz maneira e via.
Tudo se faz em poesia.

Thursday, September 30, 2010

Anoiteceu

Anoiteceu

02/04/82
Anoiteceu,
E o que me sobrou do dia
Foi uma vontade enorme
De romper com tudo.
Renovar caminhos.
Abrir meus poros.
Deixar a luz escapulir dos olhos
Pra iluminar a noite.
Sentir nas coisas
O calor do Sol
Já posto.
Anoiteceu,
E em tudo que existiu
Por todo o dia:
Uma presença morna
De Vida
E uma certeza clara
De eu ainda não estar
Vencida.

Wednesday, September 15, 2010

Talvez...

Talvez...
21/08/06


Eu queria arrancar do peito o grito que nao dei.
Chorar a lágrima que deixei secar.
Esbravejar e xingar com o ódio que aplaquei.
Talvez se me tivesse dado o direito de ser humana?
De pecar, de transgredir , de fugir da perfeição…
Talvez assim...
Quem sabe?
Esse riso fosse mais sincero
Essa alegria brotasse na alma
E eu finalmente sentisse a calma
Dos que se permitem...  e amam.

Monday, September 13, 2010

?

?
06/03/86



Ponto de interrogação.
Inter rogo.
Logo,
Questões se multiplicam.
Multi aplicam
Teste, verificação.
Ver, fixar, ação.
De tudo que me explicam
Me digam:
Por que?

Wednesday, September 8, 2010

Eu?

Eu?

12/26/2009

Alguns olham distante..
Procurando adiante...
As respostas.
Alguns escutam o alheio,
Alguns tateiam o escuro,
Alguns digerem as migalhas.
E eu?
Eu... não me contento com pouco.
Não sei depender do outro.
Não aceito sem contestar.
Não culpo ninguém por meu pecado.
Não imputo meu passo errado
A outros pés que não os meus.
Eu?
Sou meu Deus e meu Diabo,
Minha dúvida e minha certeza,
Minha única possibilidade de acerto,
Minha sentença de morte ou de redenção.
Não procuro o que já trago.
Não reparto o que a mim pertence.
Não me importo se o que sou convence,
Não busco o sim onde tudo é talvez...
Construo minha lucidez
Na loucura que me faz única,
Na clareza que me faz insana.
A ninguém cabe o peso do meu engano.
A niguém cabe a culpa da minha agonia.
Sou só eu...
Na solidão inerente de ser humana.
Respondendo por meus crimes,
Contando minhas vitórias,
Prestando conta a mim mesma
Das escolhas que faço,
Da história que escrevo
E dos tortos caminhos que traço.

Thursday, August 26, 2010

Caçada

Caçada
15/09/88


Uivo,
Loba que sou.
Deserta,
Na paisagem incerta
Desse despenhadeiro.
Olho o vale lá embaixo
E tomo ciência da solidão que me cerca.
Meu grito percorre todos os espaços,
Penetra em todas as pedras,
Se deixa levar na correnteza dos rios.
Loba-mulher,
Num cio crescente,
No desejo profundo de companhia.
Perambulo.
Espreito a caça.
Farejo no mundo o meu sentido.
Trago nos dentes
O resto da carne de outro dia.
O alimento que me saciou a fome.
E na alma,
A ausência do encontro,
Do descanso há muito sonhado,
Da unidade perseguida,
Da vida...
Ah! Da vida...

Friday, June 25, 2010

Espaço em Branco

Espaço em Branco

01/12/08

Falta uma parte.
Uma peça caiu e se perdeu.
Foi chutada pelos pés que percorrem as ruas.
Passos apressados,
Rotas programadas pra lugar algum.
Agora,
Como montar essa imagem?
As cores não batem,
As formas não encaixam,
Nada se define.
Quem olha esses ser incompleto
Não pode imaginar o desespero e a agonia
De não se ter por inteiro.
A ausência de sentido,
A lacuna na existência,
O espaço em branco.

Tuesday, June 15, 2010

Quarenta

Quarenta

04/02/2010

Quando abri meus olhos, me deparei com um brilho inquietante.
Os sons eram altos, as imagens distorcidas.
E nos primeiros anos de vida,
Apenas o tato, o medo do mundo,
A vontade de colo.
Mas o tempo sem amarras,
Somou horas em meus dias,
Correu meses em meus anos.
E assim, num belo dia...
Os dez me chegaram.
Sopraram em meus cabelos a brisa leve da inocência.
Passaram rápido.  Se foram sorrindo...
Envoltos em fantasias e repletos de aventuras.
Os vinte, decididos,
Donos e senhores da verdade,
Tomaram logo o espaço.
Me imputaram decisões,
Me jogaram em mil paixões.
Tanta sede, tanta fome,
Tanta pressa e exigência,
Que se foram, aturdidos.
Os trinta, mais calmos,
Conscientes de suas certezas,
Entraram com elegância.
Arrumaram as cartas na mesa,
Ditaram algumas regras pro jogo,
Me deram rumo, marido e filho
E se foram, sem despedida.
Já na porta de saída,
Os quarenta me espreitavam.
Nem pediram por licença
Quando vi... Aqui estavam.
Não sei ainda o que me trazem.
Talvez os cinquenta me respondam.
Só sei que sinto em meus cabelos
A brisa morna da maturidade.
Trago agora um passo firme.
 Piso anos e cato horas com a consciência
De que apesar do tempo subtraído, me pedindo urgência..
Caminho atenta, serena...
E com muita paciência.

Saturday, May 8, 2010

Teu Colo

Teu Colo

09/05/2010

Quando no silêncio da noite
O medo me embala os sonhos
Peço apenas por teu colo.
Quando os passos pedem rumo
Quando as asas perdem o prumo
Peço apenas por teu colo.
Quando o riso entristece
Quando doi tanto que adormece
Peço apenas por teu colo.
E no desespero  da prece
Teu rosto me aparece
E me acalenta a alma.
E então, como na infância...
Tua voz amansa o medo
Teu olhar guia o caminho
Teu beijo cura a dor, fecha a ferida
E essa doce lembrança:
Abraço que protege e envolve
Me traz à vida!

Sunday, April 25, 2010

Passiva

Passiva
28/02/84

Mais vinte e quatro horas
Somadas ao meu tempo.
Apenas uma adição
De tempo de vida
E uma subtração de tempo
Pra vida.
Mais algumas horas
Em que percorri ruas,
Esbarrei em pessoas,
Ouvi palavras,
Disse mais tantas.
Esse rio correndo
Contínuo e incansável.
Tempo passando.
Coisas mudando.
Eu... olhando.

Thursday, April 15, 2010

Veneno dos Sábios

Veneno dos Sábios

19/01/2010

Prefiro a mudez,
O silêncio de quem engole as palavras
Não por medo,  nem timidez.
Mas por cuidado.
Antes a boca fechada
Do que o pensamento posto à prova
E a expressão sendo revista.
Não receio a crítica.
Mas tenho horror ao pré-conceito
Dos que ouvem já negando o concordar.
Por isso, calo.
E se falo
Minha palavra não é afago.
Tem o peso e a medida
Do que acredito.
Não quero o beijo hipócrita
E o hálito doce e mortal
Que mascara a ignorância.
Quero o bafo que revela.
Quero sentir arder nos lábios
O veneno amargo e amoral
Dos sábios.